Nesta exposição, o InterStruct Collective envolve-se criticamente com narrativas históricas dominantes, focando-se nos silêncios e nas ausências existentes entre elas. Através da ficção especulativa, memória compartilhada e conhecimento incorporado, o coletivo reimagina o que está omisso — convidando o público a considerar novas formas de ver e imaginar novas possibilidades de futuro. Reimagining the Untold explora histórias coloniais ligadas aos Açores e foi moldada pelas experiências dos artistas durante uma residência na ilha de São Miguel. A exposição mergulha em lacunas arquivísticas e institucionais, legados silenciados e na política da memória.
Embora o foco do colonialismo tenha recaído sobretudo sobre territórios africanos, os Açores desempenharam um papel substancial, ainda que indireto, durante o período colonial. Desde o século XV, a mão de obra escravizada proveniente desses territórios foi explorada para construir as primeiras povoações e sustentar a agricultura. O arquipélago serviu como entreposto no comércio transatlântico de pessoas escravizadas, um ponto para as embarcações fazerem escala entre África, Europa e Américas. Nesse sentido, os Açores foram bases estratégicas importantes para os empreendimentos coloniais de Portugal e estiveram plenamente integrados na economia colonial.
Informações sobre o número de navios envolvidos no comércio colonial só podem ser obtidas através da pesquisa e análise dos registos alfandegários conservados na Biblioteca e Arquivo Regional de Ponta Delgada, bem como das rotas registadas e presumidas da chamada Passagem do Meio — a travessia violenta de milhões de africanos escravizados para a América do Norte, Central e do Sul. Com evidências fragmentadas, permanecem sem resposta questões sobre as cargas transportadas e o número de mortes ocorridas durante a travessia: Quantos navios passaram pelos Açores? De onde vinham e para onde se dirigiam? Quantas pessoas embarcaram e quantas chegaram ao destino? A expressão dessa presença na cultura açoriana e genericamente na portuguesa — seja na história escrita, no espaço público ou na educação — é escassa.
O facto de os Açores terem sido um entreposto colonial e ponto de trânsito no comércio transatlântico de pessoas escravizadas e das suas rotas reflete o paradoxo inerente à sua insularidade: geográfica e politicamente periférica, mas ao mesmo tempo permanentemente conectada a redes coloniais e migratórias mais amplas. Isso revela uma ambiguidade similar à condição dos escravizados ‘libertos’ na ilha, que no século XVI tinham meia alforria, uma “semi-liberdade”. O que ressoa como uma condição subjacente da própria vida insular: uma tensão entre isolamento e conexão, um forte desejo de se relacionar e confinamento. A experiência de estar rodeado pela imensidão do Oceano Atlântico expressa essa dualidade: um horizonte que evoca tanto a saudade quanto a possibilidade de liberdade.
Durante o Estado Novo, esse paradoxo foi enaltecido pela sua propaganda. O regime romantizou a pobreza, inventou novos símbolos para cultura popular portuguesa que lhe fossem convenientes, disseminou o mito do bom colonizador e retratou o arquipélago como um paraíso natural e pouco
mais. Porque pouco mais parecia importar. Os Açores foram incluídos no imaginário imperialista como um dos pilares da chamada nação pluricontinental, dando forma a uma entidade mitológica que unia o império colonial sob a bandeira da Portugalidade. É dentro dessa fantasia política enraizada na ideologia do Luso-Tropicalismo que os legados do colonialismo português — com as suas violências, os seus deslocamentos migratórios forçados, a sua discriminação e as suas assimetrias estruturais — são tão frequentemente relegados ao silêncio até aos dias de hoje.
Como é que estes papéis e contextos históricos moldaram a forma como este território vê o seu passado colonial? Como é que essa visão se relaciona com as estruturas sociais que perpetuam desigualdades e discriminação até aos dias de hoje? Como é que esses legados afetam a maneira como percebemos corpos racializados, classe social, género, propriedade ou trabalho?
Durante a sua residência artística, no início deste ano, o coletivo procurou abordar questões e preocupações urgentes relacionadas com os silêncios e apagamentos dentro dessas histórias coloniais. O processo de pesquisa incluiu a consulta de documentos históricos, o envolvimento com associações locais, artistas, instituições e workshops colaborativos com imigrantes e seus familiares, numa tentativa de criar relações entre essa informação e a geografia, história e cultura dos Açores. Esse processo assentou no encontro de imaginários individuais e coletivos, assim como nos enquadramentos críticos do pensamento decolonial.
Este período de pesquisa foi fortemente marcado por ausências e lacunas na documentação de episódios coloniais específicos, falta de perspetivas críticas estruturadas, assim como um limitado envolvimento académico ou artístico com estas histórias. Em resposta a esses silêncios, o coletivo encontrou na ficção especulativa um método de resistência e resiliência/superação — uma ferramenta para navegar e reimaginar os vazios deixados pelas omissões históricas.
Para muitos elementos do coletivo, essas histórias são tanto pessoais quanto políticas, interligadas por memórias familiares e culturais. Reimaginando e especulando através da ficção, o coletivo reivindica a sua capacidade de ação e agenciamento, transformando o que está ausente
num espaço de possibilidades criativas. A ficção especulativa torna-se assim um fio condutor que dá forma às narrativas apresentadas em Reimagining the Untold. Este repertório oferece perspetivas alternativas e reformula episódios específicos da história colonial no território açoriano, expondo
estruturas e sistemas de opressão subjacentes que frequentemente prevalecem sem contraditório.
O processo do coletivo inscreve-se na política da memória. A memória não é tratada como uma sequência fixa e linear, mas ao invés como um fenómeno estratificado e relacional. A ausência não é entendida como mero vazio, mas como um espaço potencialmente gerador de imaginação, reivindicação e resistência. Ao ocupar essas lacunas através da narrativa, do som, da imagem e de cruzamentos disciplinares, as obras convidam o público a debruçar-se sobre essas histórias e a reconsiderar o que é lembrado, como é lembrado e por quem é lembrado.
Diferentes pontos de observação geram diferentes realidades. No espaço de Reimagining the Untold a ficção especulativa atua não somente como um recurso narrativo, mas como uma estratégia política e poética. Uma abordagem que permite a reconfiguração da memória coletiva e a possibilidade de novos futuros nascidos dos fragmentos de passados não narrados. Fundamentalmente, o trabalho não pretende dar respostas definitivas, mas sim levantar novas questões, provocar reflexão e abrir espaço para o diálogo em torno de histórias há muito silenciadas ou negligenciadas.
Existe, de facto, uma História imparcial e neutra?
Em Passagem do Meio, curta metragem de Neuza Furtado, duas jovens que passeiam pela costa encontram um lenço e um estojo envelhecido pelo tempo contendo uma carta que revela o testemunho de Mandy, uma mulher escravizada que, considerada carga indesejada, é lançada ao mar durante a travessia do Atlântico. No papel, a sua voz ecoa através dos séculos — a carta relata a sua nova realidade como “sobrevivente”, a resignação à sua condição. Mandy questiona os valores das decisões dos seus captores sobre o seu destino, expõe as verdades duras da vida de uma mulher escravizada e as suas preocupações com o não-futuro do seu filho por nascer, validando as crenças da vida após o fim. Cantos de sereia e amor perdido no mundo. Apesar de todas as circunstâncias tem presente a busca da luz. Com uma abordagem poética e visceral, Passagem do Meio resgata uma história silenciada, entrelaçando passado e presente para refletir sobre memórias que não podem ser esquecidas, “Para que as minhas memórias vivam após a minha partida...”.
Na escultura Vida Funda, a artista traz-nos a materialização do fim/começo de vida de Mandy. A obra retrata o momento de revelação, do alcançar da luz. “A calma do fundo dá-me perspetiva sobre a minha existência, vejo futuro melhor”.
Em Saudades da Terra, Gaspar Frutuoso conta-nos a história de um homem guineense escravizado pelos portugueses nos primeiros anos do povoamento da ilha de Santa Maria (1439/1444). “Em tempo de verão e sem névoa”, o homem foge para o cume de uma serra no norte da ilha “por algum delito ou falta que fez a seu senhor”. Quando regressou diz ter avistado a norte “uma terra grande”. Na sequência deste episódio e porque anteriormente os portugueses tinham falhado a missão de chegar até à Ilha de São Miguel, é enviada uma nova expedição que desta vez consegue desembarcar na ilha. Este episódio e o homem guineense que o protagoniza é não só tido como inverossímil como historicamente irrelevante por a ilha poder ser facilmente avistada desde Santa Maria com condições meteorológicas favoráveis. Mas aparentemente, não por um homem escravizado durante os primeiros anos do seu povoamento. Sob o livro está o cume da montanha, vídeo-escultura de Miguel F instiga o movimento como condição para poder ver e propõem uma reflexão sobre o efeito paralaxe na construção da História e de narrativas políticas dominantes. Através de uma estrutura lenticular que permite a visualização de diferentes palavras e imagens a partir de distintos pontos de observação, a obra confronta narrativas antagônicas: a montanha como lugar de refúgio ou de poder; elementos simbólicos de diversos sistemas de opressão e redes de resistência; fragmentos ficcionais de um mapeamento audiovisual feito no território de São Miguel. Quem olha quem? Como olha? De onde olha?
A colagem têxtil Entangled Echoes of a Colonial Past de Desirée Desmarattes tem como ponto de partida fotografias tiradas no contexto da expedição militar colonial de João Maria de Aguiar em Angola, atualmente conservadas na Biblioteca e Arquivo Municipal de Ponta Delgada, e por um trono entalhado à mão do povo Chokwe, da mesma região e período, atualmente guardado no Museu Carlos Machado. Embora estes objetos sejam diferentes no seu formato e na sua função, e separados pelos seus enquadramentos institucionais, ambos são testemunhas de um passado colonial partilhado. O seu silêncio reflete a violência estrutural presente nos processos de arquivamento, posse e exposição que continuam a moldar a memória e a representatividade. Através da colagem fotográfica e do bordado, o trabalho explora os emaranhados coloniais por meio de objetos esquecidos e narrativas submersas. Refletindo sobre a hipótese de que as ilhas dos Açores poderão ser os cumes da cidade submersa de Atlântida, essas narrativas entrelaçadas reaparecem numa Atlântida fictícia especulativa, reimaginada através a perspetiva do Atlântico Negro. A pessoa retratada terá feito parte de uma expedição colonial no sul de Angola por volta do início do século XX. A Expedição Kunene-Sambesi-Expedição (1899-1901), liderada por oficiais europeus, incluindo Pieter van der Kellen, tinha como objetivo explorar e cartografar a região, promovendo simultaneamente os interesses imperiais. Os transportadores, guias e trabalhadores locais geralmente não participavam voluntariamente. Os relatos de viagem referem que alguns tentaram fugir ou resistir a maus tratos. Os seus nomes e vozes foram em grande parte omitidos dos registos coloniais. O bordado emerge como um ato lento e tátil de lembrança: religando os fios perdidos como um gesto de reparação.
Names Without Rest and the Journey Home...? de Claire Sivier é um curta-metragem e instalação que imagina a história não contada de uma entre as muitas mulheres escravizadas que morreram nos Açores durante o tráfico transatlântico de escravizados — sem nome, mas presentes. O espírito de uma mulher negra ocupa o Capote e Capelo, tradicionalmente usado por mulheres em todo o arquipélago e passado de geração em geração. A partir de registos de óbito e batismo da Ilha Terceira, entre 1583 e 16996 — contendo apenas nomes, datas e o género presumido — a obra reflete sobre a profunda ausência de informações pessoais e espirituais dessas pessoas, e procura tornar visível aquilo que a história em grande medida apagou. Como pesquisadora social, e após a recente perda de sua avó, cristã devota, na Jamaica, Sivier reflete sobre as fronteiras difusas entre os rituais de morte cristãos e as tradições espirituais africanas sobreviventes, ambas profundamente ligadas pelos legados do colonialismo. Inspirada em Data Portraits: Visualizing Black America, de W. E. B. Du Bois, a artista explora como os dados podem ser transformados em atos visuais de memória. Um espelho entalhado tenta tornar essas vidas visíveis, revelando o número de mulheres negras que foram registadas como baptizadas (695) e falecidas (59). E imagina uma das muitas possíveis jornadas que essas mulheres seguem no pós-vida. Inspirando-se nos rituais fúnebres jamaicanos conhecidos como Nine Night, a obra honra a perda, a memória e a autodeterminação. Levantam-se questões sobre lembrança, presença e retorno. E para onde? Apenas podemos imaginar.
Ao pesquisar sobre os chamados “jardins exóticos” dos Açores, especialmente os de São Miguel, celebrados pela sua mistura de flora endémica e espécies importadas, há um verdadeiro questionamento irónico de como a “mestiçagem verde” é tão bem celebrada, amplamente valorizada e promovida para fins turísticos, enquanto que a diversidade étnico-racial humana local raramente recebe o mesmo reconhecimento e orgulho. Muitos desses jardins chamados “históricos” pelas suas origens coloniais foram criados a partir de ideais de ostentação e fetichização acerca da “beleza exótica”, termo com o qual a artista Natasha Bulha Costa lida desde criança, sendo desde cedo hipersexualizada por isso. Num exercício permanente de decolonizar a sua linguagem, a artista tenta substituir palavras como “clareza” por “lucidez” e chega a Lucy10: um trabalho que procura dar uma interpretação pessoal sobre a complexidade cultural e ecológica da mestiçagem. Combina dados históricos reais, memórias e utopias, numa instalação artística imersiva que entrelaça a botânica e a identidade híbrida, usando raízes reais e elementos vegetais vivos como metáforas da mestiçagem, da adaptação e da resistência. Estas raízes formam assim um espaço corporal e sensorial, um “ninho” onde se evocam questões sobre origem, pertença e invisibilidade. Propõe um paralelismo crítico entre a chamada “beleza exótica” atribuída a plantas e a pessoas mestiças, desconstruindo olhares coloniais e fetichizantes. O público é convidado a interagir com a instalação, gravando mensagens ou nomes nas raízes, contribuindo para transformar uma “natureza morta” num organismo vivo de memórias, afetos e expressão identitária.
Existem inúmeras formas de designar, descrever e compreender a não conformidade de género a partir de perspetivas não ocidentais. Traçar histórias interculturais e criar espaços mais seguros para a descoberta pode ser um convite à conexão com a ancestralidade e desenvolvimento de vínculos de ternura. When its edges frayed and its middle thinned, it was cut and redressed de Vijay Patel, reutiliza um sari de chiffon bordado com zari e chama à atenção para a escassez de informações disponíveis sobre as vidas daqueles que desafiaram as referências ocidentais de binarismo de género. Vitória, uma mulher negra sequestrada do Reino do Benim, vendida e escravizada no século XVI, viveu em Ponta Delgada, onde afirmou a sua identidade de género feminina. Foi presa em Lisboa em 1556 e levada a julgamento pela Inquisição portuguesa. Só temos conhecimento da existência de Vitória através de documentos dos tribunais da Inquisição. É provável que muitas outras pessoas e redes de solidariedade tenham existido nos Açores ao longo dos séculos, mas permanecem não documentadas. O motivo do punho erguido é inspirado por um cartaz criado por Navjot Altaf que, como membro do Movimento Progressista da Juventude de Esquerda, produziu cartazes serigrafados para serem usados em marchas, ocupações, comícios e encontros de ativistas. Palavras, símbolos e padrões têm o potencial de expandir o pensamento e gerar novas perspetivas. Depois desta exposição, esta faixa será erguida nas marchas do orgulho.
Em colaboração com a AIPA – Associação dos Imigrantes nos Açores, e orientado por Natasha Bulha Costa, o InterStruct desenvolveu um workshop colaborativo com imigrantes de primeira e segunda geração da Ilha de São Miguel. Este teria como objetivo a conexão e encontro com a diversidade de pessoas habitantes da ilha, as suas histórias únicas, as suas origens, as suas inquietações e descobrir qual o seu sentimento de pertença em relação a este território. Arqueologia da Memória ganha forma através de uma coleção de objetos pessoais e peças artísticas trazidas e produzidas pelos participantes durante as sessões colaborativas, guardando memórias vivas e experiências que se desdobram em narrativas, aproximando-nos uns dos outros e celebrando a nossa diversidade individual. Juntos, esses objetos formam um arquivo simbólico e vivo. Os áudios que os habitam dão-lhes voz e personalizam a sua escuta, por sua vontade e liberdade de dizer, contar e confiar. São criadores deste projeto: Alexandra dos Santos, Altina Pontífice, Cirila Fernandes, Cristina Borges, Jannette Benevides, Kateryna Kondratieva e sua filha Rada Kondratieva, Patrícia Monteiro, Sanyo Geraldo e Tatiana Tavares (em colaboração com x027).
O que é que permanece e o que é apagado? Quem são os narradores que moldam estas narrativas? O que ainda pode ser descoberto? O que significa engajar-se com aquilo que já não é, ou talvez nunca tenha sido, visível? Como podemos começar a curar as feridas de histórias que permanecem por contar?
Reimagining the Untold é uma contribuição para a reparação histórica e uma forma de pensar a curas para estes episódios apagados e silenciados. A imaginação como forma de resistência.